Home Destaque “Boeing irá sugar tecnologia que levamos 50 anos para desenvolver”, afirma sindicalista

“Boeing irá sugar tecnologia que levamos 50 anos para desenvolver”, afirma sindicalista

SHARE

Entrevista publicada por Hora do Povo, em 5 de agosto de 2019.

O diretor do Sindicato dos Metalúrgicos de São José dos Campos e Região, e membro da executiva nacional da CSP-Conlutas, Hebert Claros, declarou, em entrevista ao HP, que a venda da Embraer à norte-americana Boeing, representa “a entrega da principal empresa de defesa e engenharia aeronáutica e espacial do país a preço de banana”.

“Na nossa visão, a Boeing irá sugar todo o potencial que levamos 50 anos para desenvolver e que hoje se traduzem no sucesso dos aviões da Embraer e enviar peças de seus aviões para serem fabricados aqui com mão de obra barata. Mas a construção dos projetos (processo que envolve desenvolvimento de tecnologia) e a montagem dos aviões provavelmente será realizado nos EUA”, afirmou Hebert.

Veja abaixo a íntegra da entrevista:

HP – A venda da Embraer para a Boeing foi apresentada ao público como uma associação benéfica e necessária para as duas empresas. Você concorda com isso? Você diz que não há associação estratégica e sim uma simples compra da Embraer pela Boeing. Você pode falar mais sobre isso?

HC – Primeiro que não foi uma associação ou Joint Venture como insistiram em dizer. Se trata de uma aquisição da norte-americano Boeing pela maior e principal empresa de tecnologia estratégica do Brasil e América-Latina. Por isso o sindicato sempre se posicionou contrário a esta transação. Bolsonaro e as Forças Armadas brasileiras entregaram a principal empresa de defesa e engenharia aeronáutica e espacial do país aos americanos a preço de banana.

HP – Quais as consequências para a engenharia aeronáutica brasileira dessa venda? Se concretizada a venda, o Brasil poderá prosseguir produzindo aviões?

HC – Essa questão é muito importante. A indústria aeronáutica brasileira está com os dias contados. A indústria de engenharia e fabricação de aviões brasileira se tornará a indústria de CKD* de aviões norte-americanos. Hoje a Embraer projeta, fabricas componentes e monta os aviões. A nova empresa terá todas as decisões estratégicas na mão da direção da Boeing.

Os norte-americanos NUNCA irão enviar para o Brasil o projeto e produção de um novo avião. Isso significaria o desenvolvimento da tecnologia e geração de empregos no Brasil e todos sabemos qual o lema dos americanos quando se trata de tecnologia e empregos – “America First”.

Na nossa visão, a Boeing irá sugar todo o potencial que levamos 50 anos para desenvolver e que hoje se traduzem no sucesso dos aviões da Embraer e enviar peças de seus aviões para serem fabricados aqui com mão de obra barata. Mas a construção dos projetos (processo que envolve desenvolvimento de tecnologia) e a montagem dos aviões provavelmente será realizado nos EUA.

HP – Quais as consequências dessa venda para os trabalhadores do setor?

HC – A primeira consequência será na engenharia. Hoje os engenheiros da Embraer são reconhecidos como os melhores do mundo. Isso será absorvido pelos norte-americanos e assim garantiram que o Brasil não consiga alavancar seu potencial tecnológico com um projeto nacional que possa fazer frente às economias imperialistas. Assim os norte-americanos estão matando qualquer possibilidade de desenvolvimento nacional de tecnologia em nosso país, nos submetendo ainda mais às potencias e colocando o Brasil ainda mais no papel de exportador de commodities na divisão mundial do mercado.

A consequência mais direta aos trabalhadores já está ocorrendo nas fábricas. A empresa aprofundou um processo de reestruturação produtiva que se traduz com redução de salários e direitos e uma série de demissões que resulta no rebaixamento da massa salarial dos trabalhadores.

Desde dezembro de 2017, quando as duas empresas anunciaram que estavam em processo de negociação, a Embraer já demitiu mais de 1500 trabalhadores, tanto da produção como da engenharia.

HP – As decisões sobre a venda da Embraer para a Boeing foram tomadas de forma legal? Foram cumpridos todos os trâmites legais? Há algum motivo ou procedimento que possa gerar um pedido de anulação da venda?

HC – No capitalismo a Justiça tem lado, e as empresas foram beneficiadas por interpretações liberais da Justiça em uma relação desigual. Existem 3 processos na Justiça brasileira e várias liminares, que foram todas vencidas por abusos de juízes que julgam sem nenhum interesse à nação. Tanto a Justiça como órgãos governamentais desprezaram estudos técnicos da academia e até mesmo recomendações de alguns militares da aeronáutica.

Com certeza no futuro a entrega da Embraer será alvo de escândalos da mesma forma quando privatizações e outras entregas aconteceram em nosso país.

HP – O setor de engenharia e planejamento da Embraer será absorvido pela Boeing? Quais as consequências disso para o Brasil? Você fala em retorno a um estágio tecnológico da década de 1950. Como barrar isso?

HC – Sim, a Boeing está se apropriando do “filé mignon” da Embraer. E, como disse acima, isso irá matar qualquer projeto nacional de desenvolvimento de tecnologia em nosso país. Isso com certeza leva o Brasil de volta há 50 anos atrás, quando tomamos a iniciativa de apostar na construção de um projeto nacional de aviões e consequentemente de tecnologia.

HP – O que pode ser feito para barrar essa venda?

HC – Só iremos barrar esse processo de entrega com a mobilização da classe trabalhadora brasileira. Não adianta esperar um posicionamento de parlamentares e da Justiça em prol do país. Ambos são representantes de uma burguesia em decomposição com resquícios da época escravagista. Não tem um projeto de nação, querem somente o lucro rápido a custas dos trabalhadores brasileiros e entrega criminosa de nossos recursos naturais.

Portanto, a única saída para barrar essa entrega vergonhosa da Embraer ao imperialismo é conscientizar e mobilizar a classe trabalhadora e a população em geral sobre as necessidades de defesa de um projeto nacional independente e socialista para o Brasil.

CKD* (Completely Knock-Down, em inglês) é um kit das partes completamente não montadas de um produto