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    06. Pela reestatização imediata da Embraer

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    Edmir Marcolino da Silva[1]

    Com o debate criado em relação à compra do controle acionário da Embraer pela Boeing, abriu-se uma discussão sobre o fim da produção de aviões comerciais de médio porte no Brasil e, consequentemente, a demissão de trabalhadores.

    O que está por trás da compra da Embraer pela Boeing vai muito além disso. O propósito que levou o Brasil a ter uma fabricante de aviões era parte de uma política da década de 1950, de um governo desenvolvimentista. Projetar e construir uma aeronave significava ter o domínio de todo ciclo de produção: da matéria-prima à tecnologia mais avançada, equipamentos aviônicos e a produção dos motores propulsores.

    Se esta política fosse levada a fundo, estaríamos muito mais desenvolvidos e com várias áreas da indústria de bens de alto valor agregado. A Embraer hoje é uma empresa de engenharia que desenvolve projetos, transfere conhecimento para companhias estrangeiras, produz uma pequena parte no país e, finalmente, monta seus aviões, sendo que alguns modelos já são montados também fora do Brasil.

    No caso dos instrumentos aviônicos, principais responsáveis pela navegabilidade e segurança, todos são importados. Também são importados motores que poderiam ser produzidos no Brasil. Temos, além das mais importantes escolas de engenharia aeronáutica do mundo, a necessidade de domínio nessa área que vai além do uso aeronáutico.

    Em 2017, foram produzidos 210 jatos, sendo 101 comerciais e 109 executivos, sem contar os aviões militares. Para essa produção, a empresa empregou no Brasil 16 mil funcionários diretos e 4 mil terceirizados.  Apenas 18% dos fornecedores estavam instalados no Brasil.

    Se para essa mesma produção (2017) fossem usados os critérios traçados na década de 1950 (produção de componentes por empresas brasileiras), a cadeia produtiva poderia gerar dezenas de milhares de empregos no Brasil.

    Para chegar a esse número, é preciso recuperar um pouco da história. No auge da sua produção como estatal, em 1990, a Embraer produzia, por mês, quatro aviões Brasília (30 passageiros) e alguns Tucanos. A fabricação era praticamente toda feita pela empresa, sem parceiros de risco, com exceção de suas matérias-primas, motores e componentes importados.  A empresa empregava 12.700 trabalhadores, além dos terceirizados e fornecedores nacionais.

    Já no auge da Embraer privatizada, em 2009, eram produzidas 240 aeronaves por mês. Deste total, 20 eram os executivos ERJ 145, Legacy e Ejet; 125 eram jatos comerciais (62 EJet 190 de 100 passageiros e 63 aeronaves entre Ejet 170 e ERJ 145 de 50 passageiros) e o restante era da família de jatos executivos. Desta forma, se em 2009 a Embraer produzisse desde a matéria-prima aos componentes mais complexos, passando pela fabricação e montagem das aeronaves, chegaríamos a 70 mil empregos.

    Os argumentos usados para exigir a reestatização da Embraer, como geração de empregos e desenvolvimento tecnológico, por si só justificariam a campanha contra a venda do controle acionário da Embraer S/A para a Boeing. Mas, o que também deveria ser levado em conta pelo governo e toda sociedade é a necessidade de o Brasil possuir uma indústria aeronáutica forte, que desenvolva aviões para atender à demanda de sua grande extensão territorial.

    Do ponto de vista militar, o Brasil é um dos poucos países com grandes reservas de água potável e riqueza florestal que podem ser facilmente exploradas por qualquer empresa estrangeira, sem nenhum obstáculo. Um país com capacidade tecnológica para produzir aviões militares de combate dificultaria a sangria das nossas riquezas naturais.

    Declarações vindas do governo Temer e da própria Boeing tentam convencer a opinião pública de que a área de Defesa da Embraer não está em jogo e que, portanto, não haveria problema em relação à venda das áreas comercial e executiva. Porém, dividir a empresa em militar e civil seria decretar o fim da própria Embraer.

    O que está em jogo é muito mais do que empregos e a indústria aeronáutica. Em tempos de paz, quem não se prepara para a guerra será sempre derrotado. Temos muito mais do que petróleo, o grande gerador das guerras. A Empresa Brasileira de Aeronáutica é nossa. Não à venda para a Boeing. Pela reestatização da Embraer, sob controle dos trabalhadores.

    O autor

    [1] Edmir Marcolino da Silva é ex-trabalhador da Embraer, participou da luta contra a privatização da empresa, foi diretor do Sindicato dos Metalúrgicos de São José dos Campos, onde atualmente é assessor. É coautor do livro A Embraer é nossa! Desnacionalização e reestatização da Empresa Brasileira de Aeronáutica. São Paulo: Sunderamnn, 2009.