Home Revista 13. Com tradição em fazer aviões desde 1950, Botucatu teme fechamento da...

    13. Com tradição em fazer aviões desde 1950, Botucatu teme fechamento da Embraer

    SHARE

    Roque Fabiano, José Carlos Lourenção, Miguel Silva e Haroldo Amaral

    Os metalúrgicos de Botucatu fazem aviões desde a década de 1950, quando aqui se instalou a Indústria Aeronáutica Neiva, incorporada à nossa Embraer nos anos 1980. Estamos preocupados com o fechamento de postos de trabalho industrial no Brasil. A venda para a Boeing poderá agilizar isso, dada a política do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, com a campanha ‘Primeiro a América’.

    O Sindicato dos Metalúrgicos de Botucatu vem mantendo contatos com lideranças da região, explicando os riscos da venda da Embraer para a Boeing, incluindo principalmente o desemprego. Encontros já foram realizados com vereadores, prefeitos, deputados e lideranças sociais da cidade e região.

    Em Botucatu, são mais de 1,4 mil trabalhadores que sustentam suas famílias com o trabalho na empresa. Todos falam sobre a venda, mas ninguém apresenta garantias sobre a manutenção desse emprego em Botucatu, Gavião Peixoto e São José dos Campos, além de outras cidades que empregam mais de 17 mil funcionários brasileiros. Esta é uma de nossas preocupações.

    Em Botucatu, o sonho de todo jovem em busca do primeiro emprego é disputar uma vaga na Embraer ou nas fabricantes de ônibus, Caio Induscar e Irizar do Brasil. Se fechar a Embraer em Botucatu, são mais de mil famílias que ficarão sem emprego. Muitos, pela qualificação, terão de sair da cidade, pois não haverá emprego para todos no setor industrial, conforme estamos alertando as autoridades e lideranças sociais.

    Esta preocupação com a manutenção do emprego e o desenvolvimento de equipamentos de tecnologia no Brasil fez com que no final de fevereiro reivindicássemos uma reunião com o governador Geraldo Alckmin. É preciso que o Estado tome uma posição, já que a arrecadação de impostos e a eventual perda de empregos impactarão três regiões: Vale do Paraíba (de onde saiu o governador), Araraquara e Botucatu, na região Central do Estado.

    Dissemos a Geraldo Alckmin que a venda poderá trazer sérios prejuízos à nação brasileira e, principalmente, aos cofres públicos, devido à alta soma de impostos pagos pela empresa, além do risco de termos mais de 17 mil pessoas na rua da amargura, sem emprego. Ele sabe muito bem que São Paulo vem perdendo empresas para outros estados, devido à guerra fiscal e crise econômica.

    Notamos que o governador Alckmin se interessou pelo assunto e ficou de agendar um encontro. Porém, até o momento em que produzimos este artigo, não houve nenhum contato do Palácio dos Bandeirantes com o Sindicato de Botucatu ou demais envolvidos na campanha “A Embraer é nossa”.

    Se fechar, vai ser um caos
    Temos participado de reuniões em São Jose dos Campos, São Paulo e Araraquara, junto com outros diretores da Embraer Botucatu. Trabalhamos muito para esclarecer as lideranças sobre nosso ponto de vista. Notamos que a venda é tratada como assunto proibido. Nem os vereadores de Botucatu sabem o que está acontecendo. Preocupam-se, mas cada qual com seu nível de comprometimento com a sociedade e a política progressista.

    Em fevereiro, os vereadores aprovaram um requerimento do presidente da Câmara para que o presidente da Embraer se posicionasse ao Legislativo e à comunidade botucatuense sobre as garantias do emprego e como será feita a venda da Embraer.

    Encontros com os trabalhadores na porta da fábrica e entrevistas nas emissoras de rádio e Tv da região estão acontecendo. Percebemos que a cidade está preocupada com a venda e a possibilidade de a Embraer transferir a produção para os Estados Unidos, onde já existem unidades de produção. Se isso acontecer, vai ser o caos para muitas famílias na cidade.

    Botucatu vem perdendo indústrias para a crise e estrangeiros
    A preocupação sobre o eventual desemprego manifestado pelas lideranças sindicais e alguns políticos de Botucatu e região tem fundamento. Nos últimos anos, o Sindicato dos Metalúrgicos, além de representar a categoria nas negociações relacionadas ao salário e qualidade no ambiente de trabalho, vem se desdobrando em manter em funcionamento empresas do setor.

    Foi assim há cerca de 20 anos, quando a Caio (então a maior fabricante de ônibus urbano do Brasil) decretou concordata. A empresa, que tinha mais de 2 mil funcionários, teve sua força de trabalho reduzida a menos de 600 empregados, que ficaram com seus salários atrasados e endividados. Foi criada uma cooperativa de produção e, posteriormente, houve a compra da fábrica pelo Grupo Ruas, que administra frotas de ônibus em São Paulo. Atualmente, o setor de ônibus com duas grandes empresas emprega mais de seis mil trabalhadores na cidade.

    Não tivéssemos lutado pela manutenção dos empregos e buscado fórmulas para manter a empresa funcionando, não teríamos esse setor na cidade. Antes disso, nos anos 1980, Botucatu tinha muitas empresas metalúrgicas nos ramos ferroviário e agrícola, que fecharam com a internacionalização da produção e com a crise.

    Infelizmente, temos no meio sindical pessoas que acreditam ser a venda um bom negócio. Não é! Quando a Embraer comprou a Aeronáutica Neiva de Botucatu, circularam boatos sobre o encerramento da empresa aqui na cidade. Pressionamos prefeito, dirigentes da empresa que naquela época tinham mais compromisso com a cidade e a manutenção do emprego no Brasil. Foi muito bom para a então subsidiária Neiva e para os acionistas da recém-privatizada Embraer. Botucatu passou a produzir os aviões da linha leve, sob licença da Piper e o modelo agrícola Ipanema.

    A Neiva, que tinha cerca de 500 empregos, cresceu e hoje o complexo emprega quase 2 mil pessoas. Infelizmente, os acionistas da Embraer não estão preocupados com o emprego dos trabalhadores e com a soberania nacional, já que a nossa Embraer é a espinha dorsal da Defesa brasileira, com projetos aeronáuticos, na Marinha, entre outros setores. A Embraer é nossa. Não à desnacionalização. Não ao desemprego!

    Os autores

    Roque Fabiano é diretor do Sindicato de Botucatu e diretor de base na Embraer

    José Luis Lourenção é diretor do Sindicato dos Metalúrgicos de Botucatu

    Miguel Silva é presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de Botucatu

    Haroldo Amaral é jornalista