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    12. Compra pela Boeing é golpe final para desnacionalização da Embraer. Nossa luta é pela reestatização!

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    Toninho  Ferreira[1]

     As negociações entre a Embraer e a norte-americana Boeing, com possibilidade de venda da empresa de aviões brasileira, representa um grave golpe contra o país. Na prática, o que está em jogo é a desnacionalização total da Embraer, com a entrega ao capital estrangeiro.

    A Embraer foi fundada com dinheiro do povo brasileiro, foi um investimento pesado feito em 1969. Durante todos estes  anos, a empresa recebeu subsídios do governo brasileiro. A Embraer é um empresa construída e mantida com dinheiro nacional.

    É uma empresa capaz de dominar todo o ciclo de construção do avião, do desenho na prancheta ou CadCan até o momento de colocar a aeronave no ar. O número de países que possuem esta capacidade  é muito reduzido. Além do Brasil, apenas um seleto grupo, em sua maioria considerados grandes potências mundiais, fabricam aviões. Alguns exemplos: Estados Unidos, Canadá, França, Holanda, Inglaterra, Rússia, China e Japão.  Países como Argentina e Chile chegaram a produzir aeronaves, mas deixaram de fazê-lo há muito tempo.

    O imperialismo tenta impedir que o Brasil continue fabricando tecnologia de ponta, assim como já acabou com a fabricação de tanques quando, por imposição, obrigou o fechamento da Engesa, no inicio da década de 1990[2]. Na divisão internacional do trabalho, a posição do imperialismo, com a colaboração da burguesia brasileira, é que nosso país produza apenas comodities, ou seja, apenas produtos primários. Por isso, nos últimos 30 anos, temos assistido a uma forte desindustrialização. Todo o avanço tecnológico está praticamente nos países chamados centrais. Esses países também recrutam os melhores profissionais de todo o mundo, incluindo um considerável contingente de brasileiros formados em nossas universidades. O Instituto Tecnológico da Aeronáutica (ITA) é um grande celeiros de cérebros para o Canada, França e EUA, sustentado com recursos de todo o povo brasileiro.

    A nossa inteligência parece ser o principal interesse da Boeing. A gigante pretende adquirir os setores de  engenharia e  projeto da Embraer e transformá-la em uma mera montadora, como acontece com as fabricantes de automóveis. Todos sabem que o setor pensante das montadoras não está em solo brasileiro; apenas montamos os automóveis com nossa mão de obra barata. Por isso, sofremos um atraso absoluto em relação ao carro elétrico e veiculos autônomos, que muito em breve estarão rodando em todo o mundo.

    Se a Embraer for vendida, talvez sua produção não seja mais no Brasil, à medida que a posição de Donald Trump é manter um protecionismo às empresas norte-americanas. O livre comércio é uma balela, somente praticado pelos países emergentes; os países centrais protegem sua indústria. Não é à toa que o presidente norte-americano acaba de sobretaxar o aço que entra nos EUA.

    O empresariado brasileiro  é muito covarde para enfrentar uma questão deste naipe. É assombroso ouvir  de influentes empresários da região, como   fabricantes de peças para a Embraer e dirigentes do Ciesp (Centro das Indústrias do Estado de São Paulo), de que a fusão será boa porque suas empresas irão produzir nos EUA. Nada tão ingênuo. É mais provável que desapareçam. São incapazes de se aliarem aos trabalhadores; preferem se aliar  ao gigante que, na prática, irá destruir essas mesmas empresas da região.

    Diferente do que a Boeing, Embraer, o governo Temer e os defensores dessa negociação tentam fazer parecer, não há vantagens para o Brasil. Temos a terceira maior fabricante de aeronaves comerciais do mundo, que cumpre um papel estratégico para o país no desenvolvimento de tecnologia de ponta. A venda ou fusão da empresa representaria um prejuízo sem precedentes à nossa soberania e desenvolvimento tecnológico e científico.  Qualquer proposta dessas significa, na prática, o fim da Embraer.

    Não é à toa que os países imperialistas não abrem mão de grandes empresas desse segmento. Ao contrário, têm fortes políticas para manter e desenvolver suas fabricantes nacionais de aviões e avançar sobre as empresas de outros países, como estão fazendo contra a Embraer.

    A venda para a Boeing concretizaria o processo que começou com a privatização, em 1994, e avançou ao longo dos últimos anos com a transferência da maioria das ações da Embraer para estrangeiros. O resultado é a sua desnacionalização cada vez maior.

    Há vários anos, as ações da empresa são negociadas nas bolsas de valores, como a de São Paulo e Nova York, e estão nas mãos de grandes fundos de investimento e bancos norte-americanos. Somando as ações em mãos de Oppenheimer, Thornburg, J. P. Morgan, Vanguard Emerging Markets, Fidelity Global Funds, com as ações de posse de investidores em Nova York (“NYSE Outros”), 53% das ações estão em mãos estrangeiras.

    Nos anos que antecederam a privatização, já havia estudos demonstrando que o mercado em que a Embraer atua cresceria consideravelmente, e assim aconteceu. Junto ao seu crescimento, a Embraer também passou a adotar uma política de desnacionalização cada vez maior por meio da transferência de parte de sua produção para o exterior, como é o caso dos jatos Legacy e Phenom para os Estados Unidos. Parte das peças do cargueiro militar KC-390 também está sendo produzida fora do país. Portanto, o que vemos é que a direção da empresa toma suas decisões subordinadas aos interesses de grandes grupos internacionais e bancos estrangeiros, o que evidentemente não coincide com os interesses do Brasil e, muito menos, dos trabalhadores.

    A Embraer foi privatizada, no governo FHC, a preço de banana, por irrisórios R$ 154 milhões pagos em moedas podres e nunca deixou de depender do financiamento do governo brasileiro.

    A empresa é uma das principais beneficiadas por recursos do BNDES. Levantamento do site Congresso em Foco revelou que, entre 2009 e o primeiro trimestre de 2014, a Embraer abocanhou 40% (US$ 4,9 bilhões) dos financiamentos ao exterior feitos pelo banco público.  Os lucros são privados, mas o dinheiro que financia as vendas sempre foi público.

    A concretização de uma eventual venda ou fusão com a Boeing depende do aval do governo brasileiro. O que não é nada animador, afinal, apesar de Temer ter dito publicamente que a perda de controle da empresa não estaria em discussão, também afirmou que via com bons olhos a negociação. No dia 19 de julho de 2017, o Ministério da Fazenda fez uma consulta ao Tribunal de Contas da União sobre a possibilidade de abrir mão das ações golden share da Embraer, Vale e IRB-Brasil Resseguros. Sem essas ações, o governo perde o poder de veto sobre essas empresas.

    Considerando que a privatização é uma política de Temer, assim como foi com FHC, Lula e Dilma, os trabalhadores e o povo brasileiro não podem contar com o governo para impedir que a Embraer seja vendida. Só podem contar com suas próprias forças e buscar apoio dos setores minimamente nacionalistas e com setores que efetivamente defendem nossa soberania. Será preciso uma grande mobilização nacional contra a venda da Embraer e pela reestatização. Seja por seu papel estratégico ou por ser financiado com dinheiro público, esse patrimônio pertence ao povo brasileiro.

    O Sindicato dos Metalúrgicos de São José dos Campos e Região reagiu imediatamente ao anúncio das negociações, divulgou nota de repúdio e anunciou uma campanha contra a venda da empresa, com exigência ao governo que vete essa negociação e reestatize a Embraer. É preciso  somar a esta iniciativa todos os setores que defendem minimamente o patrimônio público do Brasil.

    A Embraer é dos trabalhadores e do povo brasileiro! Não à sua venda! Reestatização já!

    O autor

    [1]  Ex-trabalhador da Embraer, ex-presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São José dos Campos e Região e suplente de deputado federal pelo PSTU.

    Nota da editora

    [2] A ENGESA foi uma empresa brasileira focada no setor Bélico, fundada em 1958. A Engesa produzia veículos militares como o EE-9 Cascavel e o EE-11 Urutu. Chegou a vender seus produtos para 18 países. Decretou falência em 1993, depois de uma série duvidosa de rompimento de contratos, em que o governo dos EUA parece ter sido protagonista. (Nota da Editora)